O JUIZ QUE VOOU

O JUIZ QUE VOOU

Valentino Aparecido de Andrade

Os leitores de SARAMAGO certamente se lembrarão do engenhoso enredo de que ele se utilizou em seu famoso “Memorial do Convento”, quando estabeleceu uma relação entre histórias que pareciam dissociadas, como a da construção no século XVIII do Convento de Mafra em Portugal, a de um pitoresco casal, Baltasar Sete-Sóis e Blimunda, a do poder mágico desta última em ver as “vontades” nos seres humanos, e a ligação desse casal com o visionário padre Bartolomeu de Gusmão, que sonhava em construir uma passarola, ou seja, uma máquina que podia voar. E realmente voou, transportando seu inventor e o casal, Baltasar e Blimunda, sendo da atribuição desta última a fundamental atividade de recolher as “vontades”, com as quais o padre acreditava poder fazer a máquina voadora voar. O que realmente aconteceu, como sabem os leitores.

Mas o que SARAMAGO não quis incluir em seu famoso livro nós aqui revelamos, agora que o tempo da inquisição passou. É que além do padre e do referido casal, havia um outro ilustre personagem a compor a tripulação da passarola. Tratava-se de um juiz, cujo nome, contudo, permanecerá ainda hoje, depois de tanto tempo, desconhecido, porque se a inquisição não tem  mais  força, a magistratura, quem sabe, pode reclamar, e por isso convém não mencionarmos o nome do juiz.

Havia, pois, um juiz que, a convite do padre, viajou na passarola e que pôde testemunhar o que via. Mas o juiz sempre negou ter viajado. E talvez por isso SARAMAGO a ele não se referiu.

Mas o fato é que o juiz voou …